Uns minutos de IEFP – parte II – a saga continua 

Podia ser uma história de amor, um romance ardente, uma violenta ode à paixão entre mim e um homem alto e espadaúdo no meio do gueto… mas não. Sou eu e o IEFP outra vez. 

Ultimamente as minhas histórias dignas de ser escritas são lá nesse paradisíaco local. Talvez porque pareçam irreais e até boas candidatas a uns momentos de sátira ou mesmo porque eu não tenho dinheiro para ir às Caraíbas. De qualquer forma eu dou-vos o contexto: 

Estou a sair de casa com antecedência porque tenho medo de me perder na Reboleira. Sim, eu disse Reboleira. Procurei no google maps a morada que consta na minha terceira convocatória deste mês para o IEFP e vejo que tenho de ir até uma zona industrial perto da estação da CP da Reboleira. Só isto animou logo o meu dia. Claro que me perdi na Reboleira! Porque eu acho sempre que estou mais certa do que aquela parva do GPS que não sabe dizer corretamente “vire à esquerda”e diz “virre a ezquerdâ”. 

Quando começo a ver centenas de pessoas a passar perto de um barracão verde com o número 10 percebi que estava no sítio certo, principalmente porque essas centenas de pessoas pareciam sem-abrigos. Estaciono o carro num descampado, fecho-o e dou lhe umas festinhas no capô em tom de despedida porque não sei mesmo se o volto a ver. Começo a minha viagem em direção ao número 10 e reparo que as pessoas passam e olham para mim como se fosse um alien. Quero deixar bem clara uma questão: não olham para mim porque eu sou a Sara-Sampaio-não-descoberta-por-ninguém, também não levo uma Prada na mão nem nenhum acessório que me denuncie no meio daquele território… mas acho que deve ser só o facto de ter tomado banho.

Quando entro no edifício, deparo-me com umas 15 pessoas sentadas na sala de espera. A sensação que tive é indescritível, as expressões faciais daquelas pessoas são indescritíveis, senti que me iam pedir para entrar numa sala, de pijama às riscas, e “tomar um duche” com aqueles escolhidos a dedo. A senhora do guichet (adoro esta palavra) grita-me: “a menina está para a convocatória?!?!” – dirijo me a ela com um boa tarde e entrego o papelito. 

Espero.

Espero.

Foram 5 minutos a observar as pessoas à minha volta. Mais 5 minutos a ver uma senhora de etnia cigana mais os seus 10 familiares a ouvir muito educadamente os conselhos de uma funcionária do local em como fazer uma formação de costura (achei interessante). E por fim mais 5 minutos a ouvir um senhor aos berros que não encontrava a sala da formação de não-sei-o-quê porque “ninguém lhe dizia e estavam a gozar com ele” enquanto o segurança o acalmava com a mão no cacetete.

Precioso.

Chamam os condenados um a um para entregar umas folhas e dar ordem de entrada na sala de reunião 1.4 para esperar o início da coisa. A coisa começa pouco depois com uma senhora muito fofinha que prontamente explicou que estávamos ali porque fomos selecionados para escolher uma das duas formações disponíveis para o nosso perfil:

– Organização de eventos

– Princípios de multimédia 

(Aaaaawwwwweeeeeeee) a minha primeira vontade foi rir, depois foi começar aos gritos com aquela mulher, depois passei pela fase da negação em que tudo aquilo era um pesadelo ligeiro e que era rebuscado de mais. Mas isto piorou. São duas formações que não posso recusar, segundo a senhora fofinha, porque se eu estivesse a trabalhar também tinha de aceitar o que o meu patrão me propunha – isto foram mesmo as palavras daquela senhora. Ela ainda explicou os programas das formações nas 350 horas (outubro a abril) que temos de fazer obrigatoriamente, mas eu aí já só estava a pensar o que fazer à minha vida nem ouvi. 

Havia uma solução: recusar. Mas isso ela não explicou nem explica. Porque eles adoram brincar com as úlceras do povo.

Claro que no fim da folha estava uma linha muito subtil de motivo de recusa da formação com mais umas letrinhas minúsculas a explicar o perigo de ficar sem subsídio se recusar, mas foi o que fiz. Fiquei uma semana a pensar na minha vida, mas lamento se não quero fazer uma formação de agricultura, como já me foi proposto antes, porque não se enquadra na minha formação profissional. A minha responsável prisional assegurou que não tinha de me preocupar porque era ridículo eu fazer formações a baixo do meu nível de estudos (oooohhhhh a sério???? Então porque é que me chamam????).

Eles não querem saber se me estão a propor formações de nível 4 quando eu estou a terminar o nível 5. Eles não querem saber se eu sou bancária ou gestora, querem é que eu apreenda a cavar batatas na terra. Sem qualquer ofensa aos agricultores porque eu até gostava de o saber fazer por hobbie!!!

Mas não me façam gastar os MEUS IMPOSTOS em formações que me OBRIGAM a ir, dizem eles, seus filhos de uma égua. Que o dinheiro que eu recebo neste momento HORROROSO da minha vida vem dos 10 anos de descontos que já fiz meus grandíssimos chupistas!!!!!

Pronto, já desabafei.

Para concluir, o meu carro estava no mesmo sítio. Intacto e lindo.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Uns minutos de IEFP – parte II – a saga continua 

  1. Ri muito aqui com a narrativa! kkk
    Por algum motivo, as situações mais chatas e constrangedoras viram humor quando escrevemos, por isso adoro os blogs e estou gostando muito do seu! 😉

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s