Desabafo de uma aspirante a astronauta

Engraçado chegar a esta idade – engraçado o car@€&# – e não saber se vou ser astronauta ou enfermeira. Falo como se tivesse 80 anos, mas não me venham com merdas como se ainda fosse nova para tirar 4 licenciaturas diferentes e experimentar mais de 30 empregos até encontrar o tal.

Não gosto muito de comentar assuntos popularuchos, mas aquela miúda que escreveu uma carta ao PR a queixar-se de não ter entrado em Medicina por duas décimas lembrou-me…

No 12•ano, ainda não sabia eu o que era o urban à noite – inocente, portanto – decidi concorrer para Biologia. E quando digo Biologia, foi essa a minha única escolha no ingresso… apesar de haver espaço para escolher outros tantos cursos. Eu tinha tanta certeza que era aquilo que queria ser, que dediquei toda a minha média de merda àquele curso tão desejado para seguir investigação em genética, a minha grande paixão. Aiiiiiiiii era tão linda…

Não entrei. E não foi por duas décimas. Foi por 3 centésimas.

Fiquei portanto num segundo décimo segundo ano a fazer melhoria a matemática. Este ano resume-se a almoços com vinho tinto e ginásio com uma grande amiga a acompanhar-me em semelhante desgraça. Acho que foi dos melhores anos que tive.

Quando volto a fazer exames, volto à carga no ingresso para a universidade… mas desta vez já devia ter ido ao Urban e coloquei 10 escolhas como manda o bom senso. (Peço desculpa, mas bom senso e urban não conjugam mesmo nada). Eis que entro na minha segunda escolha, mais uma vez lixada pelas centésimas, em Medicina Nuclear. Vou parar à ESTESL, vivo o melhor ano universitário da minha vida e curto à brava noites em branco a fazer trabalhos de Química Aplicada. Volto a tirar de bom duas ou três pessoas desta experiência, mais algumas histórias engraçadas para os netos. Claro que cheguei ao final do primeiro ano a ter a certeza de que não era aquilo que queria para a minha vida.

Passo os próximos anos a experimentar trabalhos, a procurar algo que me motive: restauração, data entry operator, call center, assistente administrativa, hospedeira e promotora de eventos (os melhores anos, sem dúvida!)… costumava dizer que estava farta de vender o meu corpo e com os quilinhos a começar a pesar, aquilo não ia durar muito mais tempo!

Os anos passam passam passam… fico mais baralhada. Gosto de tudo e não gosto de nada. Não sou a melhor em nada, não sou a pior em nada. Sou boa a fazer um pouco de tudo. Sou portuguesa, desenrascada como a merda.

Chego à conclusão que não tenho remédio. Decidi que o melhor era escolher o curso mais geral e abrangente que existisse: Gestão. O que é que um gestor faz? Tudo.

Claro que com a independência que fui ganhando isto só faria sentido a trabalhar para ganhar currículo ao mesmo tempo que avanço nos estudos. É aí que entro na área da Banca. São dois primeiros anos felizes, são outros dois de horror. A parte mais gira é que fui feliz num call center, onde no último ano fazia quase 8 horas por dia a ligar a clientes… dizem que é um horror, que são escravos nestes trabalhos precários… mentira! Horror é entrar num balcão de um banco “a sério” que passado um mês deixa de ser sério e passa a ser mau, e ainda depois de levar com isto tudo ouvir todos os dias que não vou sair da cepa torta e ficar agarrada a uma secretária até aos 80 anos (tinha colegas mais velhas). Mais uma vez, só tirei de positivo as pessoas que conheci lá e a estaleca que a experiência me deu… “sabe lidar com situações de pressão?” MESTRE!!! 

Hoje não sei o que quero. Porque aquilo que sei que quero neste momento não me parece que exista. Porque deixei de acreditar que em Portugal temos quem acredite em nós e nas nossas capacidades. Porque deixei de acreditar que vou ser bem tratada num próximo trabalho. Porque em Portugal, os médicos recebem uma miséria e nós achamos que eles é que tão à grande.

Eu sei que costumo ter mais piada no que escrevo. Mas isto não tem piada nenhuma.

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2 pensamentos sobre “Desabafo de uma aspirante a astronauta

  1. É verdade que a vida real raramente tem “piada”, no verdadeiro sentido do termo! E quando tem, muitas das vezes estamos tão “empedernidos” que já não a percebemos.
    Ainda é nova e vai certamente encontrar um caminho profissional que lhe agrade. Mas esteja certa que esse rol de experiências que tem na bagagem, mesmo que negativas, lhe vão ser muitíssimo úteis.
    Um dia… ainda vai achar piada a isso tudo!

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