Coincidências 

Não acredito muito em coincidências. Acredito que tudo o que acontece tem um propósito. Nunca procurei muito, nem sei se quero, dar um nome aquilo que acredito e ter um título oficial de crente na religião X ou Y. Gosto de dizer que sou ateia. Mas é mentira.

Há um ano e tal atrás apanhei um táxi no marquês de pombal para o trabalho, localizado naquele bonito sítio chamado Amadora. Meio desgadelhada, ou mesmo totalmente, vou a correr com o braço no ar para que algum Taxi pare. Na altura não tinha uber.

Mal entro no táxi peço ao senhor para me levar ao destino e ele prontamente arranca e começa com uma conversa profunda sobre a sua vida: que era taxista há alguns anos e trabalhava muito para sustentar a sua filha que tinha problemas. Descreveu me toda a doença dela, uma doente mental, que passava metade da sua vida internada em hospitais psiquiátricos… o dinheiro que gastava em tratamentos e medicamentos… a sua vida difícil para colocar o pão na mesa. Que só aguentava porque os seus clientes lhe davam gorjetas. Até uma certa parte da conversa eu estava com alguma simpatia pela vida dura deste senhor… mas a forma como ele começou a insistir que só as gorjetas lhe metiam o pão na mesa, estava a fazer me alguma confusão. Nem sequer tive oportunidade de abrir a boca, ele começou a falar mal eu entrei e não parou até ao destino. Eu a meio já me estava a sentir incomodada porque o senhor estava a encontrar me moralmente contra a parede para lhe dar dinheiro, a mais. E é de sublinhar que eram 8 da manhã e eu nem tava a conseguir raciocinar como deve de ser! Pensei várias vezes em deixar-lhe 1 ou 2 euros de gorjeta… mas… aquilo estava a ser tão violento, tão intrusivo que deixei a decisão para o momento final. Tive de o interromper para explicar onde era o destino, a Amadora ainda é grande e aquilo é quase em Queluz… ele continuou a conversa do dinheiro até lá. Quando chegámos à porta do meu trabalho, o taxímetro contava 11,90€. Dei-lhe 15€, duas notas, e pacientemente aguardei o troco. Faltavam minutos para picar o ponto. O senhor informa-me que não tem troco porque tinha acabado de pegar ao serviço. Isto simplesmente foi o clique. Não tem troco??? Como assim??? Disse ao senhor, ainda com calma, que sei que todos os taxistas são obrigados por lei a iniciar o seu turno com um fundo de caixa para trocos, ao qual ele respondeu que não o tinha feito. 

“Tudo bem menina, há aqui algum café perto?” 

“NÃO! Não há!!!”

Ele ainda tentou me convencer a ir à procura de um sítio qualquer onde arranjar os trocos e eu quase que espumei pela boca porque faltava minutos para entrar! Reclamei com o senhor que se estava a apanhar um táxi era porque estava com pressa e que não tinha culpa nenhuma da sua incompetência. Ainda tentou um: então como fazemos? E aí eu já tinha a certeza que ele ia perder. “Vou anotar o seu nome, a sua matrícula e vou fazer queixa. Por tudo o que me disse.”

Aí ele deu me os 5€ e acabei por ter um desconto de 1,90€.

Sai do táxi, ainda lhe disse “pena que tenha sido tão avarento, ainda ficou a perder”. Fiquei completamente fora de mim toda a manhã. Senti me culpada, não sabia se ele realmente passava necessidades, mas sabia que aquela história foi estupidamente violenta. Ele provocou em mim um misto de “vais me dar gorjeta porque és obrigada a ter pena de mim” e uma vontade de lhe partir a boca. Aquele 1,90€ não era um orgulho para mim, não me pertencia. Porque é que ele fez aquela conversa? Se fosse calado, e com a pressa que eu tinha, o mais provável era eu ter pago os 15€ e sair a correr para o trabalho!!

Isto podia acabar aqui. Mas é agora que entra a coincidência. Ou o karma.

Passado dois meses, volto a apanhar um táxi porque estou atrasada outra vez. Volto a correr para o Marquês e volto a estender o braço. Entro no táxi que me responde ao apelo e digo: é para a Amadora por favor.

Desta vez, entro e tenho uma sensação familiar. Era o mesmo homem, no mesmo táxi… ele arranca.

Primeiro, tive medo. Depois acalmei-me, talvez ele não se recorde. Decidi ir calada e rezar que não voltasse com a mesma conversa. Ele olhou várias vezes pelo espelho, sempre calado.

Desta vez nem sequer tive que explicar o resto do caminho, ele foi direitinho à porta do meu trabalho e aí foi evidente que ele me reconheceu.

Quando chegámos, o taxímetro contava 12,30€. Voltei a dar-lhe duas notas, uma de 10 e outra de 5€ e disse: “Fique com o troco, assim ficamos de contas certas.”

Nunca mais o vi. Nem acho que volte a ver. Porque a lição ficou aprendida para os dois. Acho que são estes pequenos momentos que eu gosto de viver. Os que são estranhos, irreais… que nos fazem pensar. Com o passar dos anos fui vivendo momentos com várias pessoas que, surpreendentemente, voltam às nossas vidas por acaso, e acho que é porque ainda há coisas para aprendermos juntos. Acredito nisso. Anseio por mais momentos, que me façam crescer e viver, que mexam com a nossa maneira de acreditar, de ter fé. 

Obrigada Sr. Taxista 

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3 pensamentos sobre “Coincidências 

  1. Ai Helena, concordo! Esses momentos são muitos estranhos mas nos ensinam alguma coisa sobre vida e sobre nós mesmos. Acho que nós encontramos pessoas e expeirências nas nossas vidas que mudam o jeito que nós pensamos. Quem nós somos quando temos 30 anos é muito differente de quem nós somos quando temos 20 anos. Há razões para esse! What I’m trying to say is this is really good shit, keep it up.

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